Bloomsday 2005 – Florianopólis (SC)

 

 

 

16 de junho

 

Coordenação: Sérgio Medeiros (NELOOL) e Dirce Waltrick do Amarante (NELOOL)

Homenagem a James Joyce, Lucia Joyce e Samuel Beckett

 

NO CENTRO DA CIDADE

 

14 horas -- concentração na Praça XV: abertura do evento (Sérgio Medeiros) e leitura (Corpo de Letra) do poema "Praça XV", de Cláudio Trindade

 

14:10 -- ao lado do prédio dos Correios: leitura (Fernando Scheibe) de uma carta sentimental de Joyce à sua mulher Nora Joyce (tradução de Carlos Valente)

 

14:30 --  na Rua Victor Meirelles: leitura performática (Corpo de Letra) de trechos do "Ulisses", de Joyce – episódio do cão vira-lata, cena do mar e delírio no bordel (tradução de Antônio Houaiss)

 

15:00 -- na Rua Victor Meirelles: leitura (Corpo de Letra) de uma carta escatológica de Joyce para Nora Joyce (tradução de Carlos Valente)

 

15:30 -- ao lado do Teatro Álvares de Carvalho: leitura (Alai Garcia Diniz) do ensaio "A Irlanda no Tribunal", de Joyce (tradução de Dirce Waltrick do Amarante)

 

16:00 -- na lavanderia Lav e Lev (Rua Araújo Figueiredo, 45, junto ao Teatro Álvaro de Carvalho): leitura performática (Clarisse Alcântara e Marina Moros) da cena das lavadeiras de Finnegans Wake (fragmentos do capítulo VIII do romance, na tradução de Dirce Waltrick do Amarante)

 

16:30 – no bar Cosmopolite (Aliança Francesa, Rua Visconde de Ouro Preto, 282): leitura em francês (Fernando Scheibe e Clarissa Alcântara) do diálogo de Jute e Mutt, de "Finnegans Wake" (tradução de André du Bouchet)

 

NO AUDITÓRIO DO CCE

 

18:30 -- abertura (Sérgio Medeiros) e início da performance "Esperando" (Adalberto Heller, Ciliane Bedin e Marina Egger)

 

18:40 -- leitura em inglês (Eliana Ávila) e em português (Dirce Waltrick do Amarante) do poema XXXVI de Música de Câmara , James Joyce (tradução de Alípio Correia de Franca Neto)

 

18:50 -- um número musical ao vivo (Marco Rocha)

 

19:00 -- "A voz em Beckett e na Psicanálise" (Maurício Maliska)

 

19:10 – leitura performática (Maris Viana e o Grupo Oficina de Teatro do DAC) de fragmentos de How it is/Como é (tradução de Ana Helena Souza)

 

19:20 -- "O farsesco em Esperando Godot" (Jade Martins)

 

19:30 --  projeção do filme Fourteen, de John Cage

 

19:45 -- Homenagem a Lucia Joyce: uma dança indeterminada (Aline Quites) ao som de Luciano Berio (adaptação de uma coreografia da professora Rachel Chula)

 

29:55 -- Encerramento da performance "Esperando"

 

20:00 – Encerramento do Bloomsday (Sérgio Medeiros)

 

 

JOYCE, O ESCRITOR QUE GARGALHAVA]

 

Por Sérgio Medeiros*   e-mail: panambi@matrix.com.br

 

Florianópolis realiza no dia 16 de junho o seu terceiro Bloomsday

 

Lemos no romance "Ulisses" (1922), de James Joyce, que gargalhar é uma forma de libertar o espírito da servidão do espírito. Esse mesmo espírito galhofeiro orientará a programação do terceiro Bloomsday de Florianópolis, a ser realizado no dia 16 de junho em dois locais: às 14 horas, no centro da cidade, ao ar livre, e, às 18:30, no auditório do CCE, na UFSC. O Bloomsday, ou o dia de Bloom, é uma festa performática celebrada em muitos países e em muitas línguas, que rememora as andanças de Mr. Leopold Bloom, o herói andarilho do grande romance de Joyce; é também uma homenagem à arte em geral, sobretudo aquela mais irreverente, do ponto de vista estético e político. Bloom, o judeu errante, caminha entre linguagens, ouvindo e falando todos os estilos da literatura, visto que "Ulisses" é o mais híbrido dos romances, alterando sua língua a cada novo capítulo, conforme a narrativa vai avançando da luz solar para o escuro da noite.  

 

              O Bloomsday deste ano homenageará dois artistas irlandeses, além do próprio Joyce: Lucia Joyce, filha do escritor, e Samuel Beckett, discípulo do autor de "Ulisses". Lucia Joyce é uma figura complexa e fascinante, bela (embora estrábica) e extremamente dotada para a dança, mas os biógrafos do escritor sempre a consideraram um "peso" na vida de Joyce, pelo fato de ser esquizofrênica e precisar, quando o pai ainda era vivo, ser internada em clínicas numerosas vezes. Atualmente, no entanto, a imagem de Lucia está se modificando e sua carreira malograda de bailarina começou a ser reavaliada, a ponto de ser considerada uma das pioneiras da dança moderna na Europa. Podemos afirmar que Lucia foi comprovadamente uma artista ousada para a sua época e se expressou de modo original, até onde a doença lhe permitiu. Ao mesmo tempo, ela também sabia como usar as palavras -- sua maneira peculiar de se comunicar oralmente teria, inclusive, influído na escrita do pai, que considerava a linguagem inusitada da filha uma manifestação da veia poética da família, que ele próprio teria transmitido a Lucia. Lucia era, aliás, a única pessoa, na família de Joyce, que lia e apreciava a obra difícil e inovadora do escritor irlandês. Houve, portanto, grande cumplicidade, inclusive criativa, entre ambos. Lucia acabou se tornando, à medida que enlouquecia, uma das musas do pai, talvez a sua musa mais importante.

      

          Para resgatar Lucia do limbo estético em que os biógrafos do pai a colocaram, talvez injustamente, o Bloomsday de Florianópolis será encerrado com uma dança indeterminada que homenageará a arte esquecida da filha de Joyce. A dança indeterminada não é uma invenção de Lucia, mas contém muito do espírito inventivo da sua arte. A coreografia da bailarina Aline Quites e a música de Luciano Berio que a acompanhará só estarão juntas, pela primeira vez, no ato da performance. As duas linguagens, ora unidas, ora autônomas, dialogarão e se separarão, criando ordem e caos, serenidade e alucinação. Uma definição, talvez, do mundo épico de Joyce e de sua filha Lucia.

 

       Durante toda a vida, o dramaturgo e romancista Samuel Beckett conservou consigo uma foto de Lucia Joyce vestida de bailarina, prova de que soube perceber a alta qualidade da sua arte, conforme se lê no fascinante livro de Carol Loeb Shloss, "Lucia Joyce – To Dance in the Wake". A instabilidade da enunciação em primeira pessoa é um dos temas privilegiados de Beckett, que foi, num certo período de sua vida, uma espécie de secretário de Joyce e namorado de Lucia. Lucia   realmente se apaixonou por ele, mas Beckett acabou rechaçando-a, a despeito de sua grande admiração por Joyce. Essa crise doméstica teria deixado pai e filha abalados.

 

       Quando lemos ou assistimos Beckett, constatamos que o mundo do "eu" é sempre cambiante, composto como está de camadas que se separam, o desencontro e a incomunicação são, por isso, situações normais ("houve três coisas, a impossibilidade de falar, a impossibilidade de me calar, e a solidão"). Lucia, a dançarina incomunicável, de novo falará e dançará no Bloomsday de Florianópolis, sob os olhares daquele que escreveu, no "Ulisses": "Pensar que se está escapando e se está correndo para dentro de si mesmo. O caminho mais longo é o caminho mais curto para casa". E nessa dança, nesse ir-e-vir, reencontrará Beckett e novamente o perderá.

 

          A frase citada acima  foi retirada da tradução de "Ulisses" assinada por Antônio Houaiss. Mas ela não é mais, felizmente, a única tradução brasileira da obra-prima de Joyce. Neste mês de junho, uma nova versão chega às livrarias, lançada pela Editora Objetiva e assinada pela professora Bernardina da Silveira Pinheiro,   de 83 anos.

      

 

 A seguir, o leitor encontrará alguns textos que serão lidos no Bloomsday de Florianópolis, como um ensaio que discute aspectos políticos da obra de Joyce, por Dirce Waltrick do Amarante, e um poema sobre a Praça XV, em que o poeta Cláudio Trindade exerce sua veia joyciana para falar da capital do Estado durante uma chuva mítica, um dilúvio épico, como sucede (ou poderia suceder) no "Ulisses" irlandês. A programação do Bloomsday também é oferecida ao leitor.

 

 

           *Tradutor, ensaísta e poeta, autor de "Mais ou Menos do que Dois" (Iluminuras, 2001) e "Alongamento" (Ateliê, 2004), entre outros. Leciona Literatura na UFSC.

                

 

 

JAMES JOYCE E A POLÍTICA

Dirce Waltrick do Amarante *

 

"Eu acredito seriamente que vocês vão retardar o curso da civilização na Irlanda, impedindo o povo irlandês de dar uma boa olhadela em si mesmo no meu bem polido espelho". James Joyce

 

  Nas últimas décadas do século XX, um número expressivo de estudos propôs-se a fazer uma leitura política da obra do escritor irlandês James Joyce (1882 – 1941). Assim, uma idéia freqüente em boa parte desses ensaios é a de que "…muitas das qualidades revolucionárias, das inovações lingüísticas e literárias de Joyce podem estar relacionadas com a sua compreensão da expropriação ideológica, étnica e colonial". Ao sustentarem essa opinião, esses textos apontam como "Joyce escrevia em oposição às pretensões culturais imperialistas britânicas do seu tempo."

 

            Dentro do conjunto global dos estudos joycianos, todavia, esse tipo de análise que associa ideologia e estética, sondando certas "intenções do autor" representadas em sua escritura, ainda é relativamente nova. Caberia lembrar que os ensaios mais antigos sobre os romances de Joyce não enfatizavam – muitas vezes negavam – o aspecto político de sua obra:

Durante a época da Guerra Fria, a academia era via de regra hostil a interpretações políticas de textos, mas há outras razões para a escassez desse tipo de análise no caso de Joyce. Primeiro, a recusa de Joyce em se mostrar até mesmo minimamente envolvido nas grandes questões políticas européias dos anos 1930 foi determinante para provar a teoria de que os textos joycianos, assim como o autor deles, eram apolíticos. A segunda maior razão para essa omissão pode ser atribuída à acusação, levantada pela esquerda nos anos 1930, e que recaía igualmente sobre Franz Kafka, de que sua arte era decadente.

 

Somente no início dos anos setenta, particularmente na França, é que começaram a aparecer os primeiros estudos sérios e importantes devotados aos aspectos políticos da obra do escritor irlandês. Em 1975, Phillipe Sollers opinou o seguinte:

Acreditou-se ingenuamente que Joyce não tinha nenhuma preocupação política porque nunca disse ou escreveu nada sobre o assunto numa língua franca. A mesma velha estória: arte de um lado, opiniões políticas do outro, como se houvesse um lugar para opiniões políticas – ou para qualquer coisa que diga respeito a esse assunto.

 

A posição política de Joyce é, todavia, visível tanto na sua ficção quanto nos ensaios críticos que escreveu entre os anos 1896 (a data é incerta) e 1937, os quais incluem discussões sobre estética e política. Na opinião do estudioso irlandês Seamus Deane, aliás, "na Irlanda, ser um escritor era, num sentido muito específico, um problema lingüístico. Mas era também um problema político". Levar em conta, portanto, uma questão regional, a "questão irlandesa", que é essencialmente política, parece hoje muito relevante para se "entender" esse "novo" Joyce, um Joyce, digamos, pós-colonialista, por oposição ao Joyce formalista, construído pela crítica do passado.

 

Aqui se faz necessário, então, um breve apanhado histórico. Convém lembrar que cerca de quarenta e cinco anos antes do nascimento de Joyce ocorreu "o maior desastre da história da Irlanda", que os historiadores denominam a "Grande Fome" (1845 - 1848). Essa tragédia nacional dizimou quase metade da população do país e intensificou um antigo sentimento de rancor contra os colonizadores ingleses. Tanto no período da "Grande Fome" como no que se seguiu a ele, o governo britânico foi acusado pelos irlandeses de praticar uma "política cruel", o laissez-faire : "isso fez com que uma multidão de pobres necessitados apelassem à Lei de Assistência Social, que recusou socorro quando a segunda crise total da batata ocorreu ... Nem durante a penúria nem nas décadas seguintes foi implementada qualquer medida de reconstrução ou melhoria agrícola, e essa omissão condenou a Irlanda ao declínio."

 

            Joyce raramente menciona esse acontecimento na sua ficção, mas a "Grande Fome" é um tema recorrente nos seus ensaios críticos, que, sob esse aspecto, podem explicitar o que fica muitas vezes subentendido na sua ficção. Cito, como exemplo, um fragmento do ensaio "Irlanda, Ilha dos Santos e Sábios" (1907) , texto em que o escritor discute os problemas da colonização inglesa na Irlanda:

 

Os ingleses agora menosprezam os irlandeses porque eles são católicos, pobres e ignorantes; contudo, não será fácil justificar tal menosprezo a algumas pessoas. A Irlanda é pobre porque as leis inglesas arruinaram as indústrias do país, especialmente a indústria da lã, porque a omissão do governo inglês nos anos da carestia da batata permitiu que a maior parte da população morresse de fome e porque, sob a presente administração, enquanto a Irlanda está perdendo sua população e os crimes são quase inexistentes, os juízes recebem salário de um rei e os funcionários do governo e aqueles nos serviços públicos recebem imensas somas para fazer pouco ou nada.

 

Séculos antes da "Grande Fome", contudo, a Irlanda já vinha sendo "espoliada" (termo que tomo emprestado aos historiadores e que o próprio Joyce usaria neste contexto) pelos ingleses.

 

            Em 1160, após a chegada dos primeiros normandos ao país, comandados por Henrique II da Inglaterra, a Irlanda - uma nação celta, que possuía sua própria língua, lei e estrutura social desde o séc. VI a.C. - perdeu seu idioma nativo e sua cultura. Joyce aborda esse tema no já citado ensaio "Irlanda, Ilha dos Santos e Sábios":

 

desde a invasão inglesa até os nossos dias, existe um intervalo de quase oito séculos, e se me detive mais demoradamente no período precedente, para fazê-lo entender as origens da índole irlandesa, não pretendo detê-lo, relatando as vicissitudes da Irlanda sob a ocupação estrangeira. Eu não farei isso especialmente porque naquele tempo a Irlanda cessou de ser uma força intelectual na Europa. As artes ornamentais, nas quais os antigos irlandeses se distinguiram, foram abandonadas e a cultura sagrada e profana caiu em desuso.

 

            Foi somente no final do século XIX, com o fortalecimento do nacionalismo político, que ganhou força na Irlanda uma campanha pela independência do país. O movimento foi liderado por Charles Steward Parnell, conhecido como "the uncrowned king of Ireland" ("o rei não coroado da Irlanda"). Dado curioso, Parnell era também patrono da Associação Atlética Gaélica, fundada em 1884 para promover os esportes irlandeses como forma de resistência política e cultural.

 

            Entretanto, depois da queda política de Parnell – acusado, pelos ingleses, de ter-se envolvido com uma mulher casada, Katharine O`Shea --   e da sua morte repentina, ocorrida em 1891, a luta pela independência do país perdeu o ímpeto e ficou esquecida por alguns anos. Esses fatos marcaram um novo período na história irlandesa, o da estagnação política. Essa experiência histórica foi descrita por Joyce em diferentes textos de ficção, como, por exemplo, no romance O Retrato do Artista Quando Jovem (1916), nos contos "Os Mortos" e "Dia de Hera na Lapela" de Dublinenses (1914), e, ainda, no romance Ulisses (1922). Segundo Michael MacCarthy Morrogh:

 

O maior romance do século XX, Ulisses, de James Joyce, transcorre em Dublin em 1904. Joyce escolheu essa data porque foi o ano em que ele e Nora Barnacle deixaram a Irlanda; mas a data também simbolizava um tempo em que nada demais estava acontecendo no cenário público. Dublin e a maior parte da Irlanda pareciam ter renunciado às causas nacionalistas e pouco se importavam com a depressão política.

 

            Alguns estudiosos afirmam ainda que a vocação literária do jovem Joyce teria se manifestado exatamente nesse período de "desilusão" nacionalista. Pouco depois da morte de Parnell, Joyce, então com nove anos, escreveu seu primeiro poema, intitulado "Et Tu, Healy", em homenagem ao líder irlandês. Não há nenhuma cópia de "Et Tu, Healy", mas se conhece uma declaração de Stanislaus Joyce, irmão do escritor, a respeito do poema. Segundo Stanislaus, o poema era "uma diatribe contra o suposto traidor, Tim Healy, que informou [o envolvimento de Parnell com Katherine O`Shea] à ordem dos bispos da igreja católica e se tornou um inimigo mortal de Parnell.

 

            Caberia aqui mencionar que Charles Steward Parnell poderia ser associado a Humphrey Chimpden Earwicker, H.C.E., o protagonista de Finnegans Wake (1939), considerado por muitos críticos como uma das obras capitais do século XX. Como Parnell, H.C.E. é acusado de cometer um crime de natureza sexual: "haver-me havido com incavalheiridade imprópria oposto a um par de deliciosas serviçais" (FW 34. 18-19/ tradução de Donaldo Schüler). Além disso, tal como o líder irlandês, que foi acusado de mandar matar os líderes ingleses Lord Frederick Cavendish e Thomas Burke, no Parque Phoenix, também H.C.E. é acusado de envolver-se numa briga com um assaltante, ou com a polícia local, no mesmo parque.

 

            Marcando, porém, o fim do período de estagnação política, Arthur Griffith fundou em 1899 um novo partido, o Sinn Féin ("Nós mesmos"), que tinha por objetivo combater Westminster e criar um parlamento irlandês independente.

 

            A história da Irlanda moderna teve início, contudo, segundo os historiadores, apenas em 1916, quando dois grupos militares, o "Republican Brotherhood", liderado pelo poeta Pádraic Pearse, e "Citizens'Army", comandado por James Connolly, tomaram posse de alguns pontos importantes de Dublin e proclamaram a independência da Irlanda. O movimento foi contido pelo exército britânico e seus dois líderes, Connolly e Pearse, foram executados num julgamento sigiloso. Apesar do insucesso dessa revolta, ela foi o primeiro passo de um movimento pela criação de um governo independente. 

 

            Esse e outros fatos históricos ocorridos na Irlanda parecem ter marcado para sempre a vida e a obra de James Joyce, que, muito embora tenha deixado o país ainda jovem, aos 22 anos, nunca se distanciou espiritualmente da sua terra natal, nem ignorou os problemas políticos que esta continuava a enfrentar: "o desenvolvimento de Joyce como um artista vai de uma realidade insular para uma riqueza cosmopolita, mas para acompanhá-lo temos que inverter a direção."

 

            De acordo com os biógrafos do escritor, entretanto, Joyce nutria por seu país sentimentos contraditórios, indo da admiração à rejeição. Em 1909, dois anos depois de escrever o ensaio "Irlanda, Ilha dos Santos e Sábios", um texto "nacionalista", Joyce voltou a Dublin para uma rápida visita (nesta época o escritor morava em Trieste) e declarou o seguinte numa carta endereçada à mãe de seus filhos e futura esposa, Nora Barnacle :

 

Eu sinto orgulho em pensar que meu filho [...] será sempre um estrangeiro na Irlanda, um homem falando uma outra língua e educado numa tradição diferente.

Eu odeio a Irlanda e os irlandeses. Eles me olham na rua pensando que eu nasci entre eles. Talvez eles percebam meu ódio em meus olhos. Não vejo nada em nenhum lado, a não ser a imagem do sacerdote adúltero e seus criados e mulheres mentirosas e maliciosas.

 

            Mas, de fato, Joyce nunca se separou da sua cidade natal, ao menos na sua imaginação, por isso Dublin parece estar sempre presente na sua obra ficcional: "se Dublin algum dia for destruída, ela poderá ser reconstruída a partir das páginas dos meus livros", declarou o escritor na época em que escrevia Ulisses

 

            Concluindo o que expus acima, afirmaria, repetindo o que já disseram os estudiosos, que as opiniões políticas de Joyce não podem ser, todavia, "facilmente definidas pelas idéias que são mais familiares à nossa compreensão de sentimentos nacionais e posições políticas".

 

Ao compor sua obra, principalmente a última, Finnegans Wake, o escritor adotou uma linguagem indireta e parodiou eventos e personagens históricos numa dimensão global, criando, assim, uma história que é simultaneamente universal e local, com nomes que podem ser reconhecidos mundialmente, mas que se encontram num ponto particular do planeta, a Irlanda.         

 

            Não se pode esquecer ainda que, no final do século XIX e início do século XX, época em que Joyce começou a escrever suas ficções, o império britânico viveu o seu apogeu, o que parece ter gerado em parte da população inglesa um forte sentimento de superioridade racial sobre outros povos, e "especialmente sobre os irlandeses", segundo apontam alguns pesquisadores, como, por exemplo, Vicent Cheng :

 

A convicção de que a Pax Britannica realmente estaria a serviço dos melhores interesses do resto do mundo […] tendia a reforçar a presunção etnocêntrica de genialidade do povo anglo-saxão para regular suas vidas e as de outros povos [… ] todas as outras raças, em particular os celtas, requereram instituições altamente centralizadas ou autoritárias para evitar uma violenta revolta política e social.

 

            Essa situação política, entretanto, sempre mereceu o olhar atento do autor de Finnegans Wake. Em 1907, por exemplo, Joyce escreveu um ensaio crítico intitulado "A Irlanda no Tribunal". Nele, o escritor discute o julgamento de um irlandês pela corte inglesa, numa pequena cidade do interior da Irlanda. Muito embora os membros da corte não falassem ou entendessem o idioma irlandês, nem o réu falasse inglês, o mesmo foi considerado culpado e condenado por um crime que até hoje não se sabe ao certo se ele realmente cometeu.

 

          "A Irlanda no Tribunal" é uma crítica ao descaso com que o colonizador inglês tratava o povo irlandês e os problemas do seu país: "a imagem daquele velho estarrecido, um remanescente de uma civilização que não é nossa, surdo e emudecido diante de seu juiz, é um símbolo da nação irlandesa no tribunal da opinião pública.." Esse ensaio, traduzido por mim, será lido na íntegra no Bloomsday de Florianópolis, por Alai Garcia Diniz, e no de São Paulo, por Aurora Fornoni Bernardini.

 

            Outros ensaios críticos escritor por James Joyce demonstram sua posição em relação à questão irlandesa: "Irlanda Ilha dos Santos e Sábios", já mencionado, "A Sombra de Parnell", "Oscar Wilde: O Poeta de Salomé", são apenas alguns exemplos.

 

* Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e doutoranda em literatura na UFSC

 

 

Praça XV

                       Cláudio Trindade*

por enquanto.

torrencial.

ungiaguardando.

sob o átrio.

matriz de duas torres.

(chove menos sob a figueira centenária. ExTampido.

corre perigo. alguém ainda lá. corre daí.)

Aguaceiro. Pé-d'água. Bategada. Carga d'água.

aqui. espanachuva.

resfosilente.

genuflexório.

escapulários silhuetados.

pensa. passa. verruma. persigna-se.

ribombuns. ExTalidos.

cinco minutos.

Pa. para. pára. parar.

passam. precípites. …

espadanou-se. esparrinhou-se. transeuntes.

vermelho. que cor. sinaleira. ?. passadiços.

ainda. um pouco.

borrichuvisca.

sob a marquise.

retém gente. Reboliço.

vitrados.

passos. parados.

louças. vidros. gravatas. mixórdias. tilintando. tilintantes. tilinluzindo.

regateando. de quando.

enquanto.  burburinhos.

apinhados. lentimovendo-se. bulir…indo.

esquina. sombrinhas. guarda-chuvas.

es. es. es.

-se. –se. –se.

Espezinhando.

Esparzinhando

esgueirando. 

também.

quem. ?.

vis-à-vis.

de soslaio.

quase.

pa.

pas.

pass.

passou. 

 

(Ilha de Santa Catarina, 05/2005)

 

* Cláudio Trindade é poeta e artista plástico

 


Tradutora e doutoranda em Teoria Literária na Universidade Federal de Santa Catarina.