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Narcisa Em?lia: Uma Irlandesa na Hist?ria de Jos? Bonif?cio

 

??Wilma Therezinha Fernandes de Andrade

 

Publicado em: Santos Arte e Cultura, Ano 1, vol. 2, mar?o de 2007.

 

 

 

 

H? muitos estudos sobre Jos? Bonif?cio de Andrada de Silva, o Patriarca da Independ?ncia.  Poucos citam a esposa dele.  Quem foi ela, qual sua origem, como foi seu casamento, como era, que personalidade tinha?  H? sil?ncio sobre essa mulher.

 

Nosso objetivo foi esclarecer um pouco essa desconhecida figura.  Tarefa de garimpagem para descobrir, juntar os fragmentos espalhados aqui, ali, acol?.  Trata-se, avisamos, de apresenta??o de uma pesquisa em curso.

 

Jos? Bonif?cio nascido em 1763, na vila de Santos, teve educa??o aprimorada e estudou na Universidade de Coimbra, e depois viajou para Paris onde teve v?rias aventuras com francesas.  Sua correspond?ncia, na ?poca do ex?lio, em Bord?us, com Vasconcellos Drummond, que morava em Paris, confirma essas liga??es amorosas.  Em Lisboa, em 1788, conhece Narcisa Em?lia O?Leary, nascida em Cork, importante cidade mar?tima no sul da Irlanda, por volta de 1770, segundo informa??es do dr. Jos? Carlos Brandi Aleixo, do Centro Cultural de Bras?lia, cuja informa??o agradecemos.

 

Em versos Jos? Bonif?cio, assim a descreve, j? na idade madura: ?tu de pombinha azul tens as pupilas ..., cristal o colo, de ?bano as madeixas; nos rubros bei?os trazes mel e leite?.  Retrato dela, em poder do ramo mineiro dos Andradas, confirma essa descri??o po?tica, pois apresenta uma mulher bonita, de pela clara, cabelos escuros, olhar cativante e l?bios vermelhos.

 

Jos? Bonif?cio, 25 anos, e Narcisa Em?lia uns 20, casaram-se em Lisboa, em 31 de janeiro de 1790, segundo consta no Arquiva Nacional da Torre do Tombo.  Teve o casal duas filhas: Carlota Emilia d?Andrada e Gabriela Frederica Ribeiro d?Andrada, nascidas na Europa.

 

Em 1790, inicia Jos? Bonif?cio uma longa viagem ? 10 anos ? para fazer cursos de qu?mica e mineralogia pela Europa.  Um de seus passaportes mencione a esposa, mas n?o sabemos se ela foi a todos os pa?ses. Com certeza, esteve com ela na Noruega.

 

Retornando a Portugal, Jos? Bonif?cio fica sobrecarregado com muitos cargos.  Numa carta de agosto de 1816, ao marido, transparece os cuidados com a filha que adoecera e escreve: ?quando ser? meu caro Andrada quando nos veremos contentes a sem afli??es?  Posso eu n?o as sentir longe de ti?  E assina-se a ?tua amante?.

 

S? em 1819, Jos? Bonif?cio consegue autoriza??o do governo portugu?s para voltar para o Brasil.  O passaporte d? direto ao casal, ?s duas filhas Carlota e Gabriela, um casal e ?uma filha de mama?, sem mais explica??es.  Esta crian?a, cujo nome n?o ? citado, seria uma filha que Jos? Bonif?cio tivera for do casamento. Portanto, o Patriarca n?o foi marida fiel.  Narcisa Em?lia aceitou a filha do marido.  No testamento do Patriarca, de 1834, l?-se: ?Declaro mais que tenho outra filha natural, chamada D. Narcisa C?ndida d?Andrada, a quem sempre reconheci e criei como verdadeira filho e se acha legalmente legitimada?.

 

A esposa acolheu a crian?a, a quem foi dada o nome Narcisa.  Esperteza pol?tica do marido para agradar a mulher?  Muito prov?vel.  Nunca se soube o nome da m?e.  Sabe-se que Narcisinha foi o encanto da velhice do pai; que a contemplou no testamento e nomeou o irm?o Martim Francisco como tutor.

 

Ap?s passarem pela Rio de Janeiro, a fam?lia vem para Santos em princ?pios de 1820 e por algum tempo morou na Rua Direita (hoje XV de Novembro) e se estabeleceu no s?tio dos Outeirinhos (onde hoje junto do cais, est? a imagem de Nossa Senhora de F?tima, a qual o povo chama de ?a Santa?).  Jos? Bonif?cio dedica-se com entusiasmo ? agricultura, usando m?o-obra livre, aplicando seu abolicionismo.  L?, recebe familiares e amigos.  Um deles, o alem?o Von Eschwege, descreveu um alegre sarau, na casa de Jos? Bonif?cio.  Narcisa Em?lia cantou modinha com bela voz de contralto, ao som da guitarra.  Jos? Bonif?cio, aos 57 anos, dan?ou, e muito bem, o lundu demonstrando alegre de viver.  Mas duraria pouco esse tempo tranq?ilo e feliz.

 

Chamado por D. Pedro, Jos? Bonif?cio e a fam?lia mudam-se, em meados de 1821, para o Rio de Janeiro, onde, nomeado ministro, mergulha de corpo e alma complicado processo de Independ?ncia do Brasil.  Morando num grande sobrado no Largo do Rossio (hoje Pra?a Tiradentes).  Narcisa Em?lia torna-se conhecida na Corte.  Sua casa ? freq?entada pelo imperador e D. Leopoldina e pela alta sociedade do Rio de Janeiro.

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Sobre ela temos o opini?o da Viscondessa de Sepetiba que a conheceu nessa ?poca: ?senhora do fino trato, a todos atraia e enfeiti?ava, pela amabilidade e bondade natural?. Maria Graham, not?vel viajante inglesa, referindo-se a Jos? Bonif?cio, escreveu: ?Sua mulher ? de origem irlandesa, uma O?Leary, senhora da maior amabilidade e gentileza...?  Esse ?uma O?Leary? ? significativo, pois indica uma origem de fam?lia conhecida.  Um estudo geneal?gico da fam?lia Andrada informa: ?Dona Narcisa Em?lia O?Leary, linda e polida senhora de origem irlandesa?.  Ven?ncio Neiva, historiador, a ela referiu-se: ?Narcisa Em?lia cuja beleza f?sica e moral, seus delicados sentimentos se tinham fixado duradouramente?.  Em entrevisto ao jornal O Tamoio quando de uma crise pol?tica em 1823, Jos? Bonif?cio declarou que desejava ir para o retiro dos Outeirinhos, de Santos, onde teria a presen?a de uma ?am?vel? e virtuosa companheira que tinha?.

 

Ap?s muitos anos de casado, escreveu o Patriarca sobre a mulher: ?se tivesse mais fortaleza de alma e mais economia? teria dado ao casal mais felicidade...  minha mulher a quem a natureza n?o deu cabe?a fria e nervos robustos?.  Talvez, mas n?o deve ter sido f?cil a ela acompanhar a vida turbulenta do marido, cheio de responsabilidades pol?ticas, orgulhoso e com poderosos inimigos.  O amor deve ter ajudado a aceitar os percal?os da vida conjugal.

 

Teve Narcis Em?lia que amargar a pris?o do marido, em 1823, encerrado por motivos pol?ticos, numa fortaleza no Rio de Janeiro. Visitando-o, levou-ihe roupas para amenizar seu desconforto.  Depois, foi o ex?lio de seis anos determinados por D. Pedro 1, na Fran?a, em Talance, nas proximidades de Bord?us.

 

O desterro deve ter sido uma fase tranq?ila do casamento.  Jos? Bonif?cio ocupado com livros, em cartas menciona a esposa v?rias vezas.  E faz poesia para Narcinda (pseud?nimo transparente) a quem elogia em versos amorosos, inspirados no C?ntico dos C?nticos de Salom?o.

 

H? d? me ? cara, os saborosos beijos

                   Dessa suave purpurina boca!

 

Nestas poesias redere-se ? m?sica brasileira que ?o pranto da esposa suspendias quando ausente o guerreiro?.  Cita que Narcinda tamb?m tinha vontade de voltar, pois ?da terna lira os sons enchem-lhe o peito de dor e saudade?.  Narcisa, acompanhada da lira, ou melhor, da guitarra, cantaria com bela voz, como outrora, no s?tio dos Outeirinhos?  Galante, o poeta elogia Narcinda comparando-a a uma fresca rosa matutina.  Pose-se concluir, pela an?lise dos versos, que isolamente favoreceu uma nova fase do casamento.

 

Alcan?ado o fim do ex?lio, em 1829, Jos? Bonif?cio com a fam?lia regressa ? P?tria.  Mas Narcisa Em?lia n?o veria o Brasil.  Dois dias antes do navio aportar, no Rio de Janeiro, ela faleceu aos 59 anos.  O marido levou o corpo para o Convento do Carmos, onde ela foi sepultada.  Jos? Bonif?cio n?o tinha dinheiro para as despesas.  No testamento escreveu: ?Declaro que at? a data de hoje [1834], por conta que me foi remetida, devo ao Sr. Luiz de Menezes Vasconcellos Drummond a quantia de quatro contos e dezoito mil e novecentos r?is de presta??es que me tem feito, entrando nelas o emporte de minha passagem da Fran?a para o Brasil, e todas as despesas do funeral de minha falecida mulher?.

 

A vida de Narcisa Em?lia O?Leary de Andrada continua sendo objeto de nossa pesquisa.  Foi companheira do Patriarca quase 40 anos, participou de suas gl?rias e dissabores, conheceu momentos de fast?gio como esposa de um s?bio, de um ministro e sofreu desgostos, quando ele, perseguido pol?tico, amargou pris?o, ex?lio e pobreza.  Perdoou sua infidelidade, conservando a harmonia do lar, M?e respons?vel preocupou-se com as filhas e lamentava estar longe do marido a quem chama de ?Meu querido Andrada?.  Deixou impress?es de ser am?vel, educada e sens?vel.

 

Narcisa Em?lia, uma irlandesa na vida de Jos? Bonif?cio, al?m de esposa a m?e dedicada, revelou-se uma mulher de valor.

 

 

 

 

A Bibliografia completa encontra-se em: ANDRADE, Wilma Therezinha Fernandes.  ?Narcisa Em?lia: uma irlandesa na vida de Jos? Bonif?cio?.  In: Leopoldianum: revista de estudos e comunica??o da Universidade de Santos.  Santos: Editora Universit?rio Leopoldianum, 2005.  Ano 30 ? n?mero 81/82, pp. 11-28.  ilust.? URL: http://www.unisantos.br/edul/detalhes.php?cod=60&categoria=45&tipo_material=R

 

 

Wilma Therezinha Fernandes Andrada ? professor de Hist?ria da UniSantos, doutora em Hist?ria Social pela USP, membro da AFCLAS ? Academia Feminina de Ci?ncias e Letras de Santos e da ASL ? Academia Santista de Letras, historiadora com v?rios livros publicados.

 

 

Veja: Jos? Bonif?cio ? Obra Completa? >> Narcisa Em?lia O'Leary, 1770-1829

 

 

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03.01.08